terça-feira, 31 de março de 2009

EARTHLINGS


É comum às pessoas aceitarem práticas consideradas socialmente aceitas sem nenhuma estranheza e questionamento. Porém aquele que questiona alguma destas práticas ou simplesmente as renega torna-se objeto de estranheza no corpo social.
Podem parecer estranhas minhas indicações, mas convido vocês a deixarem meu artigo e assistirem a dois vídeos que encontram-se no youtube.com e também no google video, pois é a partir deles que vamos questionar práticas socialmente aceitas. As indicações são Terráqueos (Earthlings), um documentário estadunidense de 2005, produzido, escrito e dirigido por Shaun Monson e narrado pelo ator Joaquin Phoenix. O material aborda “a absoluta dependência da humanidade em animais (para companhia, comida, roupa, entretenimento, e pesquisa científica), mas também demonstra nosso completo desrespeito por estes chamados ‘provedores não-humanos’”. E o documentário brasileiro, A carne é fraca, também de 2005, produzido pelo Instituto Nina Rosa, dirigido por Denise Gonçalves e que conta com a participação de entrevistados de diversos meios, incluindo jornalistas, médicos, filósofos e psicólogos. Fazendo com que tomemos conhecimento dos “impactos que esse ato - aparentemente banal - de consumir carne representa para a nossa saúde, para os animais e para o Planeta."
Pois bem, alguns devem estar chocados, outros indiferentes e há também aqueles que não conseguiram acabar de assistir e voltaram ao artigo, desta forma, convido-os à discussão.
Algumas pessoas nunca tinham pensado com tanta profundidade em um ato que, durante nossos dias e principalmente nos finais de semana, está tão incorporado ao nosso cotidiano e passa-se como “normal”. Talvez porque nunca tivessem se dado conta que somos parte de um todo, ou seja, de um planeta. Somos parte de um ecossistema e não o ecossistema. A condição de terráqueos vai além da espécie humana; tudo contido no planeta por si só é parte dele, e conseqüentemente os terráqueos.
Outro ponto que questionamos é o quanto a fome e o esgotamento dos recursos naturais podem estar associados às práticas que nos parecem tão tenras. O consumo destes recursos reflete diretamente no tão debatido aquecimento global, e também na não solução do problema da fome nos países subdesenvolvidos, sem falar em outras questões, que passam pela ética, a subserviência de muitos para uma minoria; a questão da saúde, o uso tecnológico para se produzir rapidamente e ainda o desconhecimento dos impactos desta tecnologia sobre o corpo.
O não questionamento de práticas individuais e coletivas fazem, ao meu ver, com que bolsas quebrem, que as mudanças climáticas se acelerem, que a solidariedade pareça apenas um valor intrínseco nas ONGs, ou num tenro prato aos domingos. A você que não viu os vídeos, e continuou lendo o artigo, convido-o novamente. Repensar atos se faz necessário, afinal somos todos terráqueos.

BIBLIOGRAFIA

INSTITUTO NINA ROSA. A carne é fraca. Disponível em:http://www.institutoninarosa.org.br/locadora.html. Acesso em: 28 out. 2008, 23:57

BLOG AUTOCONHECIMENTO. Earthlings. Disponível em: http://somostodosum.ig.com.br/blog/blog.asp?id=8585. Acesso em 28 out. 2008, 21:32

Por Valter Lourenço

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Desmistificando a sexualidade brasileira


Ao pensarmos a imagem da identidade sexual dos brasileiros, nos deparamos com a visão de que aqui existe um povo caloroso e expansivo, aberto sexualmente e pertencente a uma cultura contaminada por uma permanente carnavalização. Essa visão, de uma identidade nacional erotizada é altamente difundida e para alguns brasileiros representa uma referência positiva. No entanto, é necessário diferenciar o imaginário popular das relações sociais efetivas.
Se adotarmos uma visão da sexualidade como um fenômeno inato, natural e controlado apenas por fatores biológicos, será impossível explicar as diferenças sociais relacionadas à sexualidade, que envolvem desde as diferentes formas de expressão do desejo até as práticas e condutas sexuais adotadas por cada cultura. Contudo ao adotarmos uma visão construtivista da sexualidade, considerando os fatores históricos e as contingências sociais de cada época, podemos entender melhor como se dá a expressão da sexualidade e como foi formada a imagem erotizada do brasileiro.
Avaliando o processo histórico para a formação da sexualidade e levando-se em conta a abordagem sócio-antropológica, temos o processo civilizador como essencial para a construção de “fronteiras” entre os corpos; esse processo trouxe um controle social mais amplo das atividades sexuais, determinando padrões de privacidade e de pudor que se tornaram essenciais para o exercício da sexualidade. É certo, no entanto, que o processo civilizador varia entre as sociedades, gerando diferentes regras de comportamento e estabelecimento de condutas corporais.
Ressalta-se também a importância do fator histórico e das contingências sociais, levando-se em conta que condutas plenamente aceitas em determinadas épocas poderiam ser repudiadas em outros momentos históricos. Assim é constantemente modificada pela sociedade a forma como os indivíduos experimentam suas sensações corporais, sendo que os mesmos são socializados para a entrada na vida sexual, que será, por sua vez, determinada pelos valores e regras vigentes em cada sociedade.
Quanto à sexualidade brasileira, pode-se afirmar que a imagem extremamente erotizada foi construída historicamente e remonta à chegada dos portugueses. Estes se depararam com uma terra repleta de indígenas que viviam nus, com costumes próprios e que eram facilmente mal interpretados como, por exemplo, o costume dos homens de oferecerem suas mulheres a forasteiros como prova de reciprocidade. Foi gerada, dessa forma, uma imagem de um país sem qualquer moralidade sexual e mesmo sendo essa moralidade julgada apenas pelos olhos dos europeus recém chegados, a imagem erotizada foi difundida e ficou enraizada na cultura brasileira.
Já com relação às condutas sexuais efetivamente realizadas pelos jovens brasileiros, ressaltam-se os resultados de uma importante pesquisa realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que descobriu, por exemplo, que a idade média da iniciação sexual do jovem brasileiro é mais alta do que se imaginava, sendo ela: 16,2 anos para os meninos e 17,9 anos para as meninas. Que o mito acerca das condutas sexuais dos negros é infundado já que, comparando-se Porto-Alegre e Salvador (com 60% da população negra) observou-se que, com relação à iniciação sexual Salvador é a cidade com iniciação mais tardia. Os resultados também mostraram que o comportamento sexual está muito ligado às crenças relacionadas à afetividade, ou seja, a maioria dos jovens brasileiros prefere ter relações sexuais apenas com parceiros com quem tem uma ligação afetiva, e não acham correto, por exemplo, ter relações com outros parceiros sexuais quando estão envolvidos em uma relação afetiva estável.
Esses resultados, entre tantos outros, demonstram que há uma mistificação do comportamento sexual do jovem brasileiro, sendo que, quando esse comportamento é analisado por pesquisadores os resultados apontam que a imagem erotizada não corresponde as condutas efetivas realizadas no meio social. Mudar a imagem do brasileiro caloroso,”caliente”, aberto a práticas sexuais diversas, é uma tarefa quase que impossível, principalmente quando temos uma mídia que insiste em manter e vender essa imagem para se auto-promover, no entanto, podemos começar mudando nossa mentalidade e nossas crenças a respeito de nós mesmos e do país em que vivemos, deixando o pensamento preconceituoso e passando a basear nossas crenças em fatos que foram estudados por profissionais competentes.


Por Paula Pizzirani

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009


A CRISE


Estamos vivendo um momento marcante da história mundial, um momento em que o nosso sistema, o nosso modo de produção entra em colapso, o mercado financeiro flutuante, os investidores em pânico, pois o estado de saúde de algum presidente de uma grande companhia pode fazer a bolsa cair, como algum escândalo político de uma grande economia, tudo é instável. Esse é o fenômeno já previsto por Karl Marx no século XIX, o capital especulativo tornando as finanças fictícias, a concentração do capital em poder de um pequeno grupo de grandes conglomerados empresariais, como os bancos por exemplo, a especulação, ganhar dinheiro comprando papéis, esperando valorizar e vendendo mais caro. Como bem disse o economista Celso Furtado “é inadmissível que os lucros dessas grandes empresas sejam privatizados e os seus prejuízos invariavelmente socializados”(citado pelo presidente Lula no discurso de abertura da conferência da ONU este ano) ou seja quando está tudo bem, quando há quebras trimestrais de recordes de lucros das grandes instituições financeiras, quase não se fala, agora, quando quebram o prejuízo é de todos e todos devem “socorrer”. O grande causador da crise os Estados Unidos da América, conseguiram desestruturar o mundo globalizado, e esse é o grande problema, o prejuízo deles deve ser pago pelo resto do mundo, o que é no mínimo cômico, se não fosse trágico.
O grande fato histórico a que me referia no início, não é nem a crise propriamente dita, é sim uma mudança de valores da mentalidade americana, que aproveita o ensejo de instabilidade e insegurança para tentar uma mudança. Um país racista e etnocentrista, religiosamente intolerante, eleger um negro muçulmano para seu presidente, é no mínimo curioso.
Isso mostra a vontade de mudança devido ao quão fracassado foi o atual governo, que esvaiu as reservas do país na indústria da guerra, com uma política desastrosa e desatenta ao comportamento do mercado interno e mundial.
Então vale que os países emergentes como o Brasil, e o resto do mundo acredite que esse pode ser um bom governo, se assim o for, servirá para que o mundo reveja as particularidades do modo de produção capitalista e insira novas regras que permitam a sobrevivência de todos.Todas as fichas estão apostadas nesse novo homem mais poderoso do mundo, bom lembrar o termo globalizado para falar de mundo e torcer para que ele tenha essa consciência e a responsabilidade que sua cadeira exige. Quem sabe um dia poderemos ter um capitalismo não tão selvagem assim.

Por Clayton F.L.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Brasil: a diversidade como identidade


Se hoje assumimos nossa diversidade e a colocamos como um dos maiores símbolos e, sobretudo, como a principal característica da nossa identidade, convém dizer que nem sempre foi assim. Entender a identidade nacional como uma construção histórica faz-se necessário. Isso implica colocar em cena os debates que circundaram o tema no decorrer da nossa história; os pensamentos, objetivos e as intenções de homens que estiveram preocupados com essa questão.
Ao final do século XIX e início do XX, por exemplo, uma proliferação de pretensas teorias cientificas tomaram conta e fizeram a cabeça de muitos dos nossos primeiros pensadores. Essas teorias consistiam na crença da existência de uma superioridade de determinadas raças em detrimento de outras, assim, acreditava-se na superioridade da raça branca. Essas teorias então, esforçaram-se por provar “cientificamente” a inferioridade da raça negra.
Neste sentido, muitos foram os pensadores que, ao tentar enquadrar e adaptar tal teoria na realidade brasileira, acabaram por ver no Brasil, um país corrompido por raças inferiores, sem futuro e sem esperança para o progresso por conta da insuficiência no contingente de pessoas brancas, européias e, principalmente puras, pois a miscigenação também não era vista com bons olhos por esses pensadores, entre os quais, destaca-se Nina Rodrigues.
Outro pensador dessa época que merece ser citado é João Batista de Lacerda. Este pensador, diferentemente de outros como Nina Rodrigues, acreditava no branqueamento sucessivo da sociedade brasileira. Tal branqueamento se tornaria possível através da miscigenação entre brancos e negros; o autor chegou mesmo a estipular um prazo de 100 anos para a população brasileira atingir esse objetivo e assim, rumar ao progresso.
Um pouco depois desse período, aproximadamente entre as décadas de 1930 e 1950, o debate acerca da identidade nacional esteve presente nos ciclos intelectuais brasileiros. Esses estudiosos se propuseram a fazer um estudo do presente descortinando o passado, ou seja, fazer um diagnóstico da realidade na qual estavam inseridos através da história. Basicamente, a pergunta que eles buscavam responder era: porque estamos com esses problemas hoje? Ou, porque somos assim? Ou ainda, porque temos esse tipo de comportamento e não aquele? Dentre estes intelectuais que buscavam na herança cultural, ou seja, no inicio da história do Brasil, uma resposta para os seus problemas atuais, destaco aqui, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.
Diferentemente dos teóricos racistas, estes estavam mais preocupados com o que o brasileiro havia se tornado por conta de uma herança marcada de relações pessoais hierárquicas, inter-raciais e inter-culturais, e ambos não propuseram um projeto exclusivista ou excludente de determinadas raças, entretanto, Gilberto Freyre via com bons olhos e positividade essa herança, enquanto Sérgio Buarque de Holanda se colocava mais pessimista.
Mais recentemente, no final da década de 1970, o Brasil já havia assumido seu caráter diversificado, e Chico Buarque de Holanda compunha Homenagem ao malandro. Nesta canção, o autor, que é um cronista musical e exímio observador da realidade cotidiana, fala de malandros com gravata e capital, “candidato a malandro federal”, “com retrato na coluna social e que nunca se dá mal”; fala também de malandros que trabalham, que aposentaram a navalha e que possuem famílias, filhos etc. Chico Buarque faz então, uma homenagem ao brasileiro, o brasileiro já assumido em sua diversidade, o brasileiro que se confunde com o malandro; não é destituída de sentido aquela famosa expressão “jeitinho brasileiro”.
Entre preconceitos raciais e heranças culturais, a diversidade como identidade da nação foi construída, e nem sempre todos – negros, índios e brancos – estavam no grandioso projeto de nação do Brasil pensado e traçado por homens de letras, centrados nos debates de seu tempo. Poderíamos citar vários outros que pensaram o tema, como o próprio Mário de Andrade em Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Este trabalho, publicado em 1928 e que antecede, portanto, a canção de Chico Buarque, possui idéia semelhante. Nele, Macunaíma é o típico brasileiro, preguiçoso, que gosta de “brincar” (transar), faz as coisas de maneira facilitada e que acabam por dar certo, etc. Além disso, a obra já propõe, em 1926, quando foi escrita, a união das três raças como fator decisivo da identidade nacional, através de um episódio no qual Macunaíma, ao se lavar numa fonte que estava no meio de um rio, se torna branco, um de seus irmãos marrom avermelhado e o outro negro, apenas com as palmas das mãos e dos pés brancas.
Como podemos perceber, esse tema construído historicamente fez a cabeça de artistas e intelectuais, mas principalmente, de líderes políticos e governamentais que estiveram a mercê de suas intenções e aspirações de poder. Possuiu visões distintas e descontinuidades, de acordo com a realidade cultural e, sobretudo política, que viveram os escritores tocados e inspirados pelo tema.

Por Denis Bueno.