sábado, 13 de dezembro de 2008

Brasil: a diversidade como identidade


Se hoje assumimos nossa diversidade e a colocamos como um dos maiores símbolos e, sobretudo, como a principal característica da nossa identidade, convém dizer que nem sempre foi assim. Entender a identidade nacional como uma construção histórica faz-se necessário. Isso implica colocar em cena os debates que circundaram o tema no decorrer da nossa história; os pensamentos, objetivos e as intenções de homens que estiveram preocupados com essa questão.
Ao final do século XIX e início do XX, por exemplo, uma proliferação de pretensas teorias cientificas tomaram conta e fizeram a cabeça de muitos dos nossos primeiros pensadores. Essas teorias consistiam na crença da existência de uma superioridade de determinadas raças em detrimento de outras, assim, acreditava-se na superioridade da raça branca. Essas teorias então, esforçaram-se por provar “cientificamente” a inferioridade da raça negra.
Neste sentido, muitos foram os pensadores que, ao tentar enquadrar e adaptar tal teoria na realidade brasileira, acabaram por ver no Brasil, um país corrompido por raças inferiores, sem futuro e sem esperança para o progresso por conta da insuficiência no contingente de pessoas brancas, européias e, principalmente puras, pois a miscigenação também não era vista com bons olhos por esses pensadores, entre os quais, destaca-se Nina Rodrigues.
Outro pensador dessa época que merece ser citado é João Batista de Lacerda. Este pensador, diferentemente de outros como Nina Rodrigues, acreditava no branqueamento sucessivo da sociedade brasileira. Tal branqueamento se tornaria possível através da miscigenação entre brancos e negros; o autor chegou mesmo a estipular um prazo de 100 anos para a população brasileira atingir esse objetivo e assim, rumar ao progresso.
Um pouco depois desse período, aproximadamente entre as décadas de 1930 e 1950, o debate acerca da identidade nacional esteve presente nos ciclos intelectuais brasileiros. Esses estudiosos se propuseram a fazer um estudo do presente descortinando o passado, ou seja, fazer um diagnóstico da realidade na qual estavam inseridos através da história. Basicamente, a pergunta que eles buscavam responder era: porque estamos com esses problemas hoje? Ou, porque somos assim? Ou ainda, porque temos esse tipo de comportamento e não aquele? Dentre estes intelectuais que buscavam na herança cultural, ou seja, no inicio da história do Brasil, uma resposta para os seus problemas atuais, destaco aqui, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.
Diferentemente dos teóricos racistas, estes estavam mais preocupados com o que o brasileiro havia se tornado por conta de uma herança marcada de relações pessoais hierárquicas, inter-raciais e inter-culturais, e ambos não propuseram um projeto exclusivista ou excludente de determinadas raças, entretanto, Gilberto Freyre via com bons olhos e positividade essa herança, enquanto Sérgio Buarque de Holanda se colocava mais pessimista.
Mais recentemente, no final da década de 1970, o Brasil já havia assumido seu caráter diversificado, e Chico Buarque de Holanda compunha Homenagem ao malandro. Nesta canção, o autor, que é um cronista musical e exímio observador da realidade cotidiana, fala de malandros com gravata e capital, “candidato a malandro federal”, “com retrato na coluna social e que nunca se dá mal”; fala também de malandros que trabalham, que aposentaram a navalha e que possuem famílias, filhos etc. Chico Buarque faz então, uma homenagem ao brasileiro, o brasileiro já assumido em sua diversidade, o brasileiro que se confunde com o malandro; não é destituída de sentido aquela famosa expressão “jeitinho brasileiro”.
Entre preconceitos raciais e heranças culturais, a diversidade como identidade da nação foi construída, e nem sempre todos – negros, índios e brancos – estavam no grandioso projeto de nação do Brasil pensado e traçado por homens de letras, centrados nos debates de seu tempo. Poderíamos citar vários outros que pensaram o tema, como o próprio Mário de Andrade em Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Este trabalho, publicado em 1928 e que antecede, portanto, a canção de Chico Buarque, possui idéia semelhante. Nele, Macunaíma é o típico brasileiro, preguiçoso, que gosta de “brincar” (transar), faz as coisas de maneira facilitada e que acabam por dar certo, etc. Além disso, a obra já propõe, em 1926, quando foi escrita, a união das três raças como fator decisivo da identidade nacional, através de um episódio no qual Macunaíma, ao se lavar numa fonte que estava no meio de um rio, se torna branco, um de seus irmãos marrom avermelhado e o outro negro, apenas com as palmas das mãos e dos pés brancas.
Como podemos perceber, esse tema construído historicamente fez a cabeça de artistas e intelectuais, mas principalmente, de líderes políticos e governamentais que estiveram a mercê de suas intenções e aspirações de poder. Possuiu visões distintas e descontinuidades, de acordo com a realidade cultural e, sobretudo política, que viveram os escritores tocados e inspirados pelo tema.

Por Denis Bueno.

2 comentários:

  1. Olá!

    Até que enfim vim até aqui dar uma fuçadinha! Denis, parabéns a você e aos seus colegas pela iniciativa! Adorei o espaço. Tanto os textos como a estética!

    Ah, super parabéns pelo seu texto e as sitações de Chico Buarque!

    See you!

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  2. Vc quis dizer Citações! derrrrrr!

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