Desmistificando a sexualidade brasileira
Ao pensarmos a imagem da identidade sexual dos brasileiros, nos deparamos com a visão de que aqui existe um povo caloroso e expansivo, aberto sexualmente e pertencente a uma cultura contaminada por uma permanente carnavalização. Essa visão, de uma identidade nacional erotizada é altamente difundida e para alguns brasileiros representa uma referência positiva. No entanto, é necessário diferenciar o imaginário popular das relações sociais efetivas.
Se adotarmos uma visão da sexualidade como um fenômeno inato, natural e controlado apenas por fatores biológicos, será impossível explicar as diferenças sociais relacionadas à sexualidade, que envolvem desde as diferentes formas de expressão do desejo até as práticas e condutas sexuais adotadas por cada cultura. Contudo ao adotarmos uma visão construtivista da sexualidade, considerando os fatores históricos e as contingências sociais de cada época, podemos entender melhor como se dá a expressão da sexualidade e como foi formada a imagem erotizada do brasileiro.
Avaliando o processo histórico para a formação da sexualidade e levando-se em conta a abordagem sócio-antropológica, temos o processo civilizador como essencial para a construção de “fronteiras” entre os corpos; esse processo trouxe um controle social mais amplo das atividades sexuais, determinando padrões de privacidade e de pudor que se tornaram essenciais para o exercício da sexualidade. É certo, no entanto, que o processo civilizador varia entre as sociedades, gerando diferentes regras de comportamento e estabelecimento de condutas corporais.
Ressalta-se também a importância do fator histórico e das contingências sociais, levando-se em conta que condutas plenamente aceitas em determinadas épocas poderiam ser repudiadas em outros momentos históricos. Assim é constantemente modificada pela sociedade a forma como os indivíduos experimentam suas sensações corporais, sendo que os mesmos são socializados para a entrada na vida sexual, que será, por sua vez, determinada pelos valores e regras vigentes em cada sociedade.
Quanto à sexualidade brasileira, pode-se afirmar que a imagem extremamente erotizada foi construída historicamente e remonta à chegada dos portugueses. Estes se depararam com uma terra repleta de indígenas que viviam nus, com costumes próprios e que eram facilmente mal interpretados como, por exemplo, o costume dos homens de oferecerem suas mulheres a forasteiros como prova de reciprocidade. Foi gerada, dessa forma, uma imagem de um país sem qualquer moralidade sexual e mesmo sendo essa moralidade julgada apenas pelos olhos dos europeus recém chegados, a imagem erotizada foi difundida e ficou enraizada na cultura brasileira.
Já com relação às condutas sexuais efetivamente realizadas pelos jovens brasileiros, ressaltam-se os resultados de uma importante pesquisa realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que descobriu, por exemplo, que a idade média da iniciação sexual do jovem brasileiro é mais alta do que se imaginava, sendo ela: 16,2 anos para os meninos e 17,9 anos para as meninas. Que o mito acerca das condutas sexuais dos negros é infundado já que, comparando-se Porto-Alegre e Salvador (com 60% da população negra) observou-se que, com relação à iniciação sexual Salvador é a cidade com iniciação mais tardia. Os resultados também mostraram que o comportamento sexual está muito ligado às crenças relacionadas à afetividade, ou seja, a maioria dos jovens brasileiros prefere ter relações sexuais apenas com parceiros com quem tem uma ligação afetiva, e não acham correto, por exemplo, ter relações com outros parceiros sexuais quando estão envolvidos em uma relação afetiva estável.
Esses resultados, entre tantos outros, demonstram que há uma mistificação do comportamento sexual do jovem brasileiro, sendo que, quando esse comportamento é analisado por pesquisadores os resultados apontam que a imagem erotizada não corresponde as condutas efetivas realizadas no meio social. Mudar a imagem do brasileiro caloroso,”caliente”, aberto a práticas sexuais diversas, é uma tarefa quase que impossível, principalmente quando temos uma mídia que insiste em manter e vender essa imagem para se auto-promover, no entanto, podemos começar mudando nossa mentalidade e nossas crenças a respeito de nós mesmos e do país em que vivemos, deixando o pensamento preconceituoso e passando a basear nossas crenças em fatos que foram estudados por profissionais competentes.
Por Paula Pizzirani
Mais um texto para reflexão acerca do brasileiro, afinal de contas, a imagem que se faz quase sempre não está em consonância com a proximidade da realidade e elas sempre querem dizer alguma coisa.
ResponderExcluirBoa Paula.
Aah! Uma pergunta para pensarmos: a que se deve a moralidade do brasileiro, ou melhor, da brasileira, em relação ao sexo efetivo?
ResponderExcluirA mídia é uma merda.
ResponderExcluirAcho bacana rolar um post sobre publicidade/mídia& erotização precoce, pois é absurdamente revoltante...
O mercado vem contribuindo para o surgimento de uma nova cultura... E nós adultos também somos vítimas desse processo.
Ver: Crianças, a alma do negócio.
http://www.youtube.com/watch?v=dX-ND0G8PRU
Sobre a observação do Denis...
Você quis dizer sobre os valores que carregamos em relação a nossa própria sexualidade, ou como nos vimos/temos a partir de uma visão externa?